Pesquisa Nacional · RSF · 2026

Jornalismo
local sob
pressão do
poder paralelo

O primeiro levantamento estruturado e de alcance nacional sobre como políticos corruptos, empresários, forças de segurança, facções e outros atores silenciam o jornalismo local no Brasil.

38
veículos e comunicadores ouvidos
5
regiões do Brasil
89%
sofreram hostilidades
15,8%
têm liberdade de imprensa plena
Role para explorar
A Pesquisa

O que investigamos

O problema

Veículos de jornalismo local atuam em territórios marcados por desigualdades históricas, violência armada e diferentes formas de poder paralelo. Em muitos desses lugares, são a única fonte de informação acessível à população. Mas a pressão sobre esses veículos raramente aparece nas estatísticas.

Esta pesquisa mapeou, pela primeira vez em escala nacional, como essa pressão funciona e quais são seus efeitos concretos sobre o jornalismo e sobre as comunidades que ele serve.

Como foi feita

Entre fevereiro e maio de 2026, 38 jornalistas e comunicadores de veículos locais responderam a um questionário estruturado e, parte deles, participou de entrevistas em profundidade. A pesquisa foi conduzida com protocolos rigorosos de segurança e anonimato. Nenhum nome de fonte ou veículo é revelado neste relatório.

A investigação é assinada pela jornalista Gabi Coelho e pelo jornalista Igor Soares, com apoio da Repórteres Sem Fronteiras (RSF).

Os dados principais

O que os números revelam

Dados coletados com 38 veículos de jornalismo local das cinco regiões do Brasil.

Sofreram hostilidades
89%
34 dos 38 respondentes relataram ter sofrido ao menos algum tipo de hostilidade no exercício da profissão.
Autocensura editorial
60,5%
Já deixaram de publicar alguma pauta por medo de represálias. Violência policial e corrupção política são as mais evitadas.
Liberdade de imprensa plena
15,8%
Apenas 6 dos 38 respondentes consideram haver liberdade de imprensa plena no território onde atuam.
Nunca denunciaram
76,3%
Não fizeram nenhuma denúncia formal após sofrer ameaça ou pressão. A maior parte da violência não existe em nenhum registro oficial.
Impacto psicológico
63,2%
Relataram impacto psicológico na equipe — ansiedade, medo permanente, isolamento, desgaste emocional crônico.
Sem apoio suficiente
78,9%
Afirmam não ter apoio suficiente para continuar operando em situação de risco. 84,2% apontam falta de apoio jurídico como o principal gargalo.
Tipos de hostilidade

Como a pressão se manifesta

Os respondentes podiam marcar mais de uma opção. Os dados mostram que a violência é múltipla e simultânea.

Ataques em redes sociais
47,4%
Intimidação presencial
47,4%
Ameaça indireta
36,8%
Pressão de autoridades
36,8%
Ameaça direta
34,2%
Restrição de circulação
26,3%
Perseguição digital
23,7%
Censura explícita
18,4%

* Os respondentes podiam marcar mais de uma opção.

Frequência das hostilidades

63,2%
Das hostilidades ocorrem de forma ocasional
13,2%
Das hostilidades são recorrentes

Linha editorial alterada?

55,3% — Não alterou
26,3% — Alteração parcial
15,8% — Alteração significativa

A autocensura opera de forma seletiva: apaga pautas específicas sem alterar o perfil geral do veículo.

Atores de pressão

Quem silencia o jornalismo local

O dado vai contra o imaginário mais imediato: políticos corruptos pressionam mais que facções criminosas. Os números indicam quantos respondentes citaram cada ator como principal agente de pressão.

01 — Mais citado
respondentes que citaram
12
Políticos corruptos
Políticos corruptos usam controle de publicidade, processos judiciais e intimidação direta para silenciar veículos locais.
02
respondentes que citaram
7
Empresários
Pressão via publicidade, processos e ameaças a donos de veículos locais que dependem de anunciantes do território.
03
respondentes que citaram
6
Forças de segurança
Aparecem com destaque no Sul e no Sudeste. As forças de segurança do Estado figuram como agentes de hostilidade — evidenciando que violência institucional e ilegal frequentemente se sobrepõem nos territórios.
04
respondentes que citaram
5
Facções criminosas
Com maior concentração no Sudeste, especialmente em territórios de favelas e periferias do Rio de Janeiro e São Paulo.

Também citados

Garimpeiros (Norte)
Latifundiários (Centro-Oeste / Norte)
Igrejas fundamentalistas (Norte)
Milícias armadas (RJ e outras regiões)
Panorama Regional

O Brasil que encontramos

Dados por região, a partir das respostas dos 38 veículos participantes. Cada região tem dinâmicas próprias de poder paralelo.

Norte
10 respondentes · PA, AM, RO, RR
90%
com alguma hostilidade
60%
evitaram pautas
70%
sem denúncia formal
10%
liberdade plena
Isolamento geográfico + dependência de publicidade governamental + garimpeiros e agronegócio como atores de pressão. Subnotificação extremamente grave.
Nordeste
8 respondentes · BA, AL, PE, MA
87,5%
com alguma hostilidade
75%
evitaram pautas
87,5%
sem denúncia formal
12,5%
liberdade plena
75% evitaram pautas — acima da média nacional de 60,5%. Pressão de facções, políticos corruptos e empresários coexiste. 75% sem apoio suficiente para operar em risco.
Centro-Oeste
5 respondentes · GO, MS, DF
100%
com alguma pressão
80%
evitaram pautas
80%
impacto psicológico
0%
liberdade plena
Única região com 100% dos respondentes relatando pressão. Agronegócio, garimpeiros e políticos corruptos como principais agentes. Nenhum considera haver liberdade de imprensa plena.
Sudeste
10 respondentes · RJ, SP, MG
90%
com alguma hostilidade
50%
evitaram pautas
70%
impacto psicológico
10%
liberdade plena
Facções aparecem com mais força aqui. O cálculo de risco antes de publicar é parte da rotina editorial. 70% relataram impacto psicológico na equipe — acima da média nacional.
Sul
5 respondentes · RS, SC
80%
com alguma hostilidade
80%
impacto psicológico
80%
sem denúncia formal
0%
liberdade plena
Forças de segurança do Estado lideram como atores de pressão — padrão distinto das demais regiões. 100% adotam protocolos de segurança. Nenhum considera haver liberdade de imprensa plena.
Subnotificação

O silêncio que não aparece

A maior parte da violência sofrida pelo jornalismo local no Brasil não existe em nenhum registro oficial.

76,3%
nunca denunciaram formalmente uma ameaça ou pressão sofrida
16%
Falta de confiança nas autoridades
O motivo mais citado. Os mesmos agentes que seriam acionados são, em muitos casos, os responsáveis pela pressão.
10%
Naturalização da violência
A pressão é absorvida como parte do cotidiano, sem que seja reconhecida como violação a ser denunciada.
9%
Medo de represália
Denunciar é percebido como mais perigoso que silenciar, especialmente quando o agressor tem proximidade com o Estado.
9%
Não considerou grave
Indicativo da normalização da violência: situações que seriam inaceitáveis em outros contextos são minimizadas.

Resultado prático

Não há dados públicos sobre a segurança de jornalistas locais. Atrelado a isso, há falta de confiança por parte das vítimas nas instituições para denunciar.

CNJ
Não dispõe de dados sobre assédio judicial contra jornalistas
PGR
Encaminhou a pesquisa para MPs estaduais — nenhum respondeu
PF
Indicou que a atribuição é das polícias civis — nenhuma respondeu
Resistência

Como continuam informando

Diante da ausência de estrutura e apoio, os veículos desenvolveram estratégias próprias de sobrevivência editorial. Os números indicam quantos respondentes adotam cada estratégia.

50%
Parcerias com outros veículos
A estratégia mais adotada. Publicar em conjunto dilui o risco de represália e cria uma camada de proteção coletiva.
44,7%
Apoio de organizações
Articulação com entidades de proteção como Abraji, Artigo 19, RSF, CPJ e Rede de Proteção a Jornalistas.
31,6%
Publicação coletiva
Assinar reportagens com moradores ou outros comunicadores cria apelo comunitário e reduz a exposição individual.
28,9%
Linguagem mais indireta
Adaptar a escrita para cobrir temas sensíveis sem expor diretamente atores poderosos do território.
23,7%
Mudança de formato
Migrar para redes sociais, áudio ou outros formatos para contornar restrições e chegar ao público de formas diferentes.
Nota

73,7% dos respondentes adotam algum tipo de protocolo de segurança. Os mais comuns: comunicação criptografada, publicação sem assinatura e omissão de detalhes territoriais.

26,3% não têm nenhum protocolo estabelecido.

O que falta

Que tipo de apoio seria mais necessário

78,9% dos respondentes afirmam não ter apoio suficiente para continuar operando em situação de risco.

84,2%
Apoio jurídico
O mais citado. O medo de processos judiciais é um dos principais mecanismos de autocensura identificados pela pesquisa.
73,7%
Apoio financeiro
A dependência de publicidade de atores que deveriam ser fiscalizados é uma das formas mais disseminadas de controle editorial.
52,6%
Formação em proteção
Treinamento em segurança digital, física e protocolos de resposta a ameaças ainda é escasso para a maioria dos veículos.
36,8%
Segurança física
Estrutura para cobertura em campo, equipamentos e apoio para deslocamento em territórios de risco.
36,8%
Visibilidade nacional
O isolamento dos veículos locais é parte do problema. Exposição nacional reduz o risco de silenciamento impune.
36,8%
Segurança digital
Proteção contra ataques a sites, perseguição em redes sociais e vigilância digital — formas crescentes de censura.
Vozes da pesquisa

O que dizem os comunicadores

Relatos coletados na pesquisa. Todos os nomes são pseudônimos adotados para proteção das fontes.

"Fazer jornalismo na favela continua sendo perigoso, pois a autocensura impede o exercício integral. A busca por justiça social segue sendo a principal bandeira de um jornalista favelado."
Comunicador do RJ*
"Significa correr risco de vida ou fazer um mau jornalismo."
Jornalista de RO*
"Toda pauta tem que levar em consideração o seu cálculo de risco. Até mesmo o assunto que parece bobo tende a ter um risco considerável."
Comunicador do RJ*
"O GDF é um dos principais financiadores da emissora e pautas contra o governador vigente eram proibidas."
Jornalista do DF*
"É muito doloroso sentir que não podemos contar a verdade sem correr risco de retaliação. Tem casos que chegam pra nós e sentimos que decepcionamos as famílias."
Jornalista de SC*
"Fazer jornalismo aqui é um ato de resistência. É disputar narrativa todos os dias."
Comunicador da BA*
Metodologia

Como esta pesquisa foi feita

01
Questionário estruturado
Formulário seguro aplicado de forma remota, com perguntas fechadas e abertas, abordando tipos de hostilidade, impactos editoriais, protocolos de segurança e percepção de liberdade de imprensa. Os respondentes podiam escolher entre anonimato total ou parcial.
02
Entrevistas em profundidade
Parte dos respondentes participou de entrevistas por chamada de vídeo ou áudio. As entrevistas foram transcritas e checadas. Todos os entrevistados têm identidade protegida por pseudônimos sem relação com os nomes reais.
03
Análise e cruzamento
Os dados foram consolidados e cruzados por região, tipo de veículo e perfil de ameaça. Foram comparados com relatórios públicos da RSF, Abraji, Atlas da Violência e dados de instituições consultadas.
04
Proteção das fontes
Anonimato garantido a todos os respondentes. Pseudônimos sem relação com nomes reais. Referências territoriais generalizadas em casos de alto risco para evitar identificação por cruzamento de localização e tema.
05
Limitações da amostra
A amostra de 38 respondentes não é probabilística e não tem pretensão de representatividade estatística do universo total de veículos locais no Brasil. O objetivo é documentar padrões e produzir evidências qualificadas sobre um fenômeno pouco sistematizado.
06
Segurança da apuração
A investigação foi conduzida com comunicação criptografada. Os dados brutos da pesquisa são mantidos em ambiente seguro, acessível apenas às repórteres responsáveis. Nenhuma informação que permita identificação foi publicada.

Fontes externas utilizadas

Relatório Mundial RSF 2025 Atlas da Violência 2024–2025 Instituto Socioambiental Abraji Artigo 19 Universidade Federal de Santa Catarina Observatório de Violência contra Jornalistas e Comunicadores — Ministério da Justiça CNJ PGR Polícia Federal
Os autores
Gabi Coelho
Gabi Coelho

Jornalista investigativa independente com foco na defesa dos direitos humanos, justiça social e socioambiental. Recém-especializada em gestão de organizações da sociedade civil, analista de projetos na CTRL+Z, antropóloga em constante formação pela vida e ex-diretora da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji).

Tem passagens por veículos como Intercept Brasil, InfoAmazonia, Agência Pública, Gênero e Número, Globo, Estadão, Portal Drauzio Varella, AzMina, Colabora, Ponte Jornalismo, Favela em Pauta e Voz das Comunidades. O terceiro setor da América Latina também faz parte de sua trajetória com projetos em organizações como Artigo 19, Instituto Alana, Énois, Internews, Instituto Toriba, PerifaConnection, IDAFRO, Fundo Baobá, entre outros.

Igor Soares
Igor Soares

Jornalista formado pela UFRJ. Atua como repórter freelancer do #Colabora, do Rio On Watch e é colaborador da Folha de S. Paulo no Rio. Tem experiência em cobertura de cidades, direitos humanos, segurança pública, economia e política, com passagem pelas redações do Estadão, da Agência Estado e do Portal iG.